O Pandemônio Escolar na Pandemia

O Pandemônio Escolar na Pandemia.

Já se vão nove meses que o mundo começou a enfrentar essa situação inusitada e dolorosa da pandemia do COVID-19, que tantos efeitos têm provocado na vida da maioria dos habitantes do planeta. Para além dos momentos de medo, dor, empatia, raiva, esperança, desesperança e reflexões variadas sobre a vida e a sociedade, tenho vivenciado tudo isso de forma paradoxal nos meus múltiplos papéis sociais.

Como pai de uma criança em idade escolar, pesquisador no campo da educação, cidadão politicamente engajado e professor universitário, refletir sobre o impacto dessa pandemia nos diversos atores e instituições do universo educacional me leva a compreender que o termo pandemônio, em sua forma figurada, é o que melhor reflete o momento. De acordo com o dicionário Houaiss, pandemônio é uma situação de mistura caótica de pessoas ou coisas; confusão.

Algumas cenas educacionais do pandemônio na pandemia

·       Sem a presença física em sala de aula, e acompanhando as aulas em plataformas de vídeo como o Meet, Zoom, Skype, e outros aplicativos disfuncionais de conteúdos escolares, estudantes e professores se viram na necessidade de construírem novas formas de interação. A mais sensível delas é que os estudantes aprenderam, para desespero de alguns professores, que podem “silenciar” e ficar invisíveis nas aulas. Um clique na câmara e no microfone, e mesmo no alto-falante, quando julgarem que o conteúdo não lhes interessa, e com a privacidade e invisibilidade garantidas, podem fazer coisas durante as aulas que na sua concepção são muito mais interessantes e úteis. Por exemplo, jogar, navegar por sites e redes sociais, ouvir música, dançar, dormir, e até mesmo conversar com outras pessoas. Enquanto isso, o professor segue em seu monólogo, “ensinando” do outro lado da tela para três ou quatro  alunos, sem poder de controle sobre o coletivo como faria na sala de aula regular.

·       Professores acostumados a ensinar por meio da transmissão dos conteúdos e dos livros didáticos, se frustram e desesperam ao ter que conviver com a apatia explícita na fisionomia daqueles que não desligam as câmeras por opção própria ou porque são obrigados, e estão deitados, andando, descabelados, de pijama, comendo, olhando para o infinito, conversando com outras pessoas, etc. E o pior, imaginando o que podem estar fazendo aqueles que desligaram a câmera e que não estão assistindo o que ensinam. É melhor esquecer destes últimos, pensam, ou “pegá-los” nas avaliações individuais.

·       Sem mencionar aqui as famílias que querem e/ou precisam que seus filhos voltem para a sala de aula normal no meio da pandemia. Há uma forte pressão de muitas famílias para que a escola pré-pandemia continue ensinando os seus filhos na pandemia. As escolas e seus docentes, sem ter conhecimento mais aprofundado sobre essas novas formas de interação que lhes foram impostas por meio de tecnologias de comunicação e informação e a pandemia, acabam fazendo o que sempre fizeram, há séculos: ensinando, transmitindo informação. Assim, colocam docentes e estudantes para viver num mundo virtual como se estivessem na sala de aula regular, dentro de quatro paredes. Esquecem, no entanto, que no mundo virtual se esvai uma das funções da sala de aula tradicional, como bem nos mostrou o filósofo francês Michel Foucault no livro Vigiar e Punir: o controle físico e psicológico dos corpos e mentes, exercido por meio dos olhares e falas atentas, carinhosas e punitivas dos docentes (auxiliados, às vezes, por câmeras de vigilância) sobre os estudantes em suas carteiras enfileiradas. O ponto é que os estudantes, sem essas ameaças, com a câmera desligada, ou com a internet que “desconecta”,  por exemplo, sentem-se mais livres e não podem ser punidos da forma tradicional.

·       Famílias agora trabalhando em casa, com um ou mais filhos, precisam compartilhar o mesmo espaço, equipamentos e, o mais complexo, suprir o trabalho paciencioso e diligente dos docentes em relação às dúvidas e tarefas escolares dos estudantes em casa. Muitas vezes, diante da apatia e desinteresse do estudante diante das câmeras do celular ou do computador, e da cobrança da escola, colocam-se ao lado de seus filhos como se também fossem estudantes de educação básica, para obrigar-lhes a prestar atenção no que eles mesmos demandaram da escola: que mantivesse na pandemia a escola pré-pandemia: transmissiva. Com isso, o seu trabalho profissional que deve ser desenvolvido em casa fica comprometido, e em geral mais stress é gerado nas sempre conturbadas relações familiares, demandando mais pressão sobre as escolas e docentes que não sabem fazer diferente.

Poderia seguir descrevendo cenas de outras instituições envolvidas no pandemônio atual, principalmente daquelas famílias que não podem trabalhar em casa e em que as  crianças ficam sozinhas e sem acesso a internet, computadores e celulares, tornando o quadro ainda mais grave, mas espero já ter atingido o objetivo de formular uma imagem aproximada sobre a complexidade do que estamos vivenciando neste momento, e o caos instaurado.

Como melhor compreender o momento atual, e pensar no futuro da educação pós-pandemia? Refletir sobre o passado é sempre um bom caminho. Por isso, a seguir vou discorrer brevemente sobre alguns elementos da história da educação.

Uma breve história educacional

Há séculos a escola como a conhecemos foi inventada, com objetivos, dentre outros, de romper a perspectiva aristocrática de uma educação apenas para os filhos da nobreza, abarcando também naquele momento dos séculos XVIII e XIX as emergentes burguesias e os filhos das famílias que migraram para as cidades com os processos de industrialização nascente. Essa escola foi inventada com foco na transmissão de conhecimentos para os aprendizes, pelo professor e pelos livros, que já eram  impressos. Como ainda não visava atender a toda a população, a homogeneização das turmas e conteúdos foi o princípio adotado para se atingir a eficiência educacional, em detrimento da diversidade humana. Com isso, essa escola que atendia a apenas aproximadamente 10% da população era legitimada socialmente para ser essencialmente excludente a toda e qualquer diferença que fugisse do considerado “normal”, e dos critérios pré-estabelecidos de seriação escolar. Afinal não era todo mundo que precisava estudar, como por exemplo as mulheres, os negros, os pobres, os hiperativos, etc. (para conhecer mais sobre este processo, ver Araujo, 2014; e Esteve, 2004).

Com o avanço do capitalismo, das ferramentas tecnológicas e dos processos de democratização das sociedades contemporâneas, principalmente ocidentais, entendeu-se que uma educação inclusiva e para todos era de interesse não só daqueles que lutavam pelos princípios de democracia, igualdade e justiça social. Levar educação de mais qualidade, por toda a vida,  a uma ampla força de trabalho,e  com habilidades e competências cada vez mais sofisticadas, passa a ser de interesse também do capitalismo e das novas forças motrizes da economia.

Essa mudança de eixo e dos objetivos da educação, que deve ser para todos, de qualidade, e para toda a vida, é que vem demandando e provocando, nas últimas décadas, processos geracionais de reinvenção da educação, pressionando lentamente os paquidérmicos sistemas educacionais de todo o mundo a se mexerem na busca pela construção de novas formas, conteúdos e relações nas salas de aula. O que chamamos de criação e construção de Novas Arquiteturas Pedagógicas.

As Novas Arquiteturas Pedagógicas pressupõem repensar os conteúdos educacionais, incorporando novas disciplinas e campos de conhecimento nos currículos escolares; repensar as formas de ensino por meio das metodologias ativas de aprendizagem, que atendem aos princípios de diversidade e rejeitam a lógica da homogeneização e exclusão; e mexem com as relações em sala de aula, ao focar na democratização das relações, no protagonismo e na aprendizagem dos estudantes, e menos no papel de um professor que ensina.

As tecnologias de Informação e Comunicação são parte essencial em todo esse processo, e os recentes avanços provocados pela disseminação e barateamento da internet, da computação (principalmente em nuvem) e da telefonia celular nas últimas décadas, vêm disrompendo a escola atual, inventada nos séculos XVIII e XIX.

Essas mudanças já em andamento estavam sendo gestadas e implementadas em processos lentos, provavelmente geracionais... até que chegou a pandemia do COVID-19, e junto dela, o pandemônio escolar.

O pandemônio escolar

Em questão de dias, sem nenhum aviso prévio, em todo o mundo, as escolas foram fechadas. Aos poucos percebeu-se que a nova situação não era por alguns dias ou semanas, mas perduraria por meses... ou até mesmo anos, na opinião de alguns. Professores, estudantes, gestores, famílias, políticos, todos se envolveram no pandemônio criado, sem preparação prévia, sem uma bússola de orientação.

Em questão de dias, e não de uma geração, ficou claro que a tônica seria de “bateção de cabeças”, com vários especialistas e leigos com interesses difusos debatendo e buscando encaminhamentos para uma situação inusitada e que levou a escola para além de seus muros, envolvendo questões de saúde coletiva e até mesmo de vida e de morte. As famílias, aflitas com o seu evidente despreparo para cuidar da educação formal e percebendo de forma mais complexa as funções da escola na vida contemporânea, se desesperaram. Enquanto isso, as escolas tiveram que entrar em um universo que não podem dizer desconhecido, mas sim até então negligenciado: o do uso de tecnologias interativas de informação e comunicação na educação.

O grande gargalo no processo ficou evidente: o trabalho docente. Espremidos entre todas as forças da sociedade que legitimamente cobravam encaminhamentos urgentes para a manutenção em funcionamento das escolas e universidades, e o aprendizado de crianças, jovens e adultos, toda essa categoria profissional ficou em evidência e sob enorme pressão.

O ponto central do gargalo é que, mesmo que formados nas principais universidades de todo o mundo, a maioria aprendeu que ser professor era reproduzir o modelo pedagógico e epistemológico dos séculos XVIII e XIX: a transmissão dos conhecimentos, em uma sala de aula entre quatro paredes. Em questão de dias,  da educação infantil ao ensino superior, foram demandados a se reinventar e a descobrir novas ferramentas e novas formas de trabalho. Muito stress, e neste caso me parece que a palavra pandemônio é suave para explicar os momentos vividos (e ainda sendo experienciados) por essas pessoas, sem previsão de arrefecimento e alívio no curto prazo.

Como enfrentar a situação?

Em primeiro lugar compreendendo que as tecnologias interativas do século XXI não têm como princípio e nem a função de servir aos modelos pedagógicos e epistemológicos das escolas dos séculos passados, baseados na transmissão de conhecimento e na lógica excludente das diferenças. Pelo contrário, as tecnologias disruptivas que hoje se apresentam aos professores, se empregadas de forma adequada, são interativas, empoderadoras, participativas, e permitem exatamente que a diversidade se manifeste em sala de aula, de forma democrática e inclusiva, em outra lógica de tempo e de espaço para a construção de conhecimentos.

Em segundo lugar, compreendendo que as demandas de formação e informação das crianças, dos jovens e dos profissionais imersos em um mundo muito mais diverso, plural, democrático e acessível a outras fontes de conhecimento que não apenas os professores e os livros impressos, exigem que os conteúdos escolares sejam ressignificados, contextualizados, e trazidos para o interesse de quem os aprende e da sociedade.

Por fim, como terceira forma de se enfrentar a situação aqui posta, compreender que as mudanças descritas exigem uma mudança radical na forma de relação entre docentes e estudantes. O elemento mais forte dessa transformação é o professor entender a mudança de seu papel em sala de aula, seja ela física ou virtual. De detentor do conhecimento que lhe compete ensinar, ele precisa entender que seu papel deve ser de mediador, curador, orientador do conhecimento e da informação que encontra-se disponível agora em múltiplas e diversas fontes e linguagens, aderentes à diversidade dos estudantes que frequentam as escolas, universidades e outros campos de formação pessoal e profissional.

O trabalho docente no meio do pandemônio e no pós-pandemia

Como reconhecido hoje em dia pela maioria dos educadores, a escola como a conhecemos precisa ser reinventada, e o pandemônio vivido atualmente exerce um poder acelerador nesse processo que poderia ser geracional. Esse processo já se encontra em curso, em todo o mundo, mas prevejo que será ainda mais forte no mundo da pós-pandemia.

Nas minhas reflexões como pesquisador, pai, cidadão e professor, uma constatação se apresenta de forma clara: boa parte dos equívocos gerados pelo pandemônio na pandemia deve-se ao fato de que escolas e docentes ainda não compreenderam que não basta transpor os conteúdos, formas e relações da escola tradicional para o mundo virtual. Afinal, no universo virtual, tempos, espaços e relações têm natureza diferente.

O grande equívoco do trabalho docente é que, em geral, mantêm a lógica do encerramento das quatro paredes da sala de aula (agora transformados nos quatro lados da tela), conversam com o coletivo e seguem cobrando o desenvolvimento de atividades de forma individualizada, como se pudessem passar de carteira em carteira para acompanhar um aluno. Se na sala de aula física o professor consegue, enquanto atende a um aluno, levantar a cabeça e falar com outros estudantes ao mesmo tempo, ou resolver um problema de indisciplina com um olhar em direção a alguém, no mundo virtual isso não funciona. Com as câmeras desligadas, ou mesmo que ligadas mas com imagens minúsculas em uma tela, a percepção e controle do coletivo não é possível.

 O tempo empregado na explicação de uma atividade ou procedimento em sala de aula também não é o mesmo no mundo digital, que é muito mais ágil e pautado em múltiplas lógicas perceptivas e cognitivas. Como costumo exemplificar, estúdios de cinema transformam um livro de 500 páginas em um filme de 2 horas; agências de publicidade te convencem de uma necessidade em pílulas de 30 segundos; alguns aplicativos permitem que você demonstre um conceito com uma imagem, ou um vídeo curto.

O caminho para a escola no pandemônio atual e na pós-pandemia está no emprego de metodologias ativas de aprendizagem, no uso de múltiplas linguagens e no reconhecimento de múltiplas inteligências, e no trabalho com projetos pautados em conteúdos contextualizados nas vidas pessoal e social dos studantes, tendo estes como protagonistas do processo educativo.

Assim, se em vez de ficar ensinando conteúdos e tentando cobrar individualmente e de forma homogeneizada a aprendizagem, os docentes delegassem desafios e problemas de suas áreas de conhecimento aos estudantes para que, trabalhando em grupo, pesquisem e tragam respostas a serem compartilhadas e discutidas coletivamente, sob mediação do professor, teríamos mais engajamento, mais participação... e mais aprendizado autônomo. A maioria dos encontros virtuais deveriam ser mais rápidos, de 15 minutos por exemplo, e mais distribuídos no tempo escolar, e em grupos menores, e com mais atividades colaborativas. Em vez de controle sobre corpos e mentes, teríamos controle sobre processos e produtos de conhecimento: coletivos, diversos, democráticos, inclusivos e criativos.

Bom, termino aqui esta postagem, com o convite à reflexão sobre causas e consequências do pandemônio escolar em tempos de pandemia. Em um próximo post, em breve, darei continuidade à discussão sobre o trabalho docente, e trarei algumas formas possíveis de se romper o impasse com excelência, ética e engajamento, pensando no mundo pós-pandemia.

Referências:

ARAUJO, U. F. (2014). Temas transversais, pedagogia de projetos e mudanças na educação. São Paulo: Summus Editorial.

ESTEVE, J. (2004). A terceira revolução educacional: a educação na sociedade do conhecimento. São Paulo: Moderna.

FOUCAULT, M. (1987). Vigiar e Punir: história da violência nas prisões. Petrópolis: Editora Vozes.

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